27/09/26

O diabo não gosta de água benta

Não consigo acompanhar certas discussões sobre a presença da Igreja (Católica) na sociedade portuguesa sem que uma imagem me venha imediatamente à cabeça. Muitos exorcistas, pelo mundo fora, relatam a agitação do diabo quando uma pessoa possessa é aspergida com água benta. Guardadas, evidentemente, todas as distâncias (antes que alguém se apresse a concluir que estou a diagnosticar possessões nas caixas de comentários das redes sociais ou na opinião pública), às vezes é difícil não pensar nessa imagem quando se observa a reação quase automática que qualquer presença pública da Igreja parece provocar em determinados setores da nossa sociedade. Mas esta é a conclusão que tiro na minha humana fragilidade: o diabo (e os seus seguidores) não gostam mesmo de água benta (da Igreja).

25/09/26

A Fé não precisa ser inventada para ser anunciada ao mundo

Há poucas horas a Igreja beatificou Fulton J. Sheen, o arcebispo norte-americano que levou o Evangelho a milhões de pessoas através da rádio e da televisão. A sua memória litúrgica será celebrada, a partir de agora, a 9 de dezembro, dia da sua morte, em 1979. Fulton Sheen é uma figura particularmente interessante para os tempos que vivemos na Igreja, sobretudo porque nos recorda que é possível anunciar a fé com firmeza, inteligência, sensibilidade e até com uma boa dose de humor, sem cair na tentação de transformar o Evangelho numa peça de museu ou numa doutrina que se adapta às conveniências de cada época.

09/09/26

O direito à dúvida: as teorias da conspiração, as verdades incómodas e as perguntas proibidas

Numa determinada cidade, o rei anunciou uma notícia alarmante: um exército inimigo preparava-se para atacar. Mandou avisar toda a população e a ordem era clara: todos deveriam abandonar as suas casas, reunir-se num determinado ponto fora das muralhas e preparar-se para enfrentar os invasores. Não havia tempo para hesitações. O perigo era demasiado grande. Confiando no rei, o povo obedeceu.

15/08/26

O Domingo que faz a Igreja: Missa, Preceito e Santificação do Dia

O Cristianismo tem uma história de 2000 anos, marcado por um ritmo que continua, hoje, a definir quem somos: o domingo. Se é verdade que é um dia de descanso (dies hominis - dia do homem), o Domingo não é só isso e muito menos uma obrigação a "despachar" antes que a semana recomece. É, na expressão que já os primeiros cristãos usavam, o "dies Domini", o dia que pertence ao Senhor porque n'Ele Cristo ressuscitou (cf. Ap 1,10). Diante disto, o que estamos realmente a celebrar quando vamos à missa de domingo (e até mesmo aos chamados "dias santos")? E porque é que a Igreja, ao longo dos séculos, foi tão cuidadosa a regular como e quando esse dia se vive?

14/08/26

Bento XVI no Bundestag: Direito, Razão e Dignidade Humana

Hoje revisitei o discurso de Bento XVI no Bundestag alemão. Quem me conhece sabe que nunca escondi o carinho que tive por este homem de Deus. Mas compreendo que a densidade dos seus escritos não era (e não é) compatível com as vidas aceleradas que o ser humano hoje leva. Acho que é por isso (porque não vejo outro motivo) que tantas vezes escuto: “do Bento XVI eu não gostava muito”. É que não há tempo para nada… e para compreender Bento XVI, é preciso tempo…

24/07/26

O direito de entrar e o dever de respeitar

Num artigo publicado no Público, Isabel Stilwell relata a indignação que sentiu ao ser informada de que não poderia entrar na Sé Catedral de Silves com os ombros e os joelhos descobertos. A partir desse episódio, constrói uma acusação ampla contra aquilo a que chama «a ala mais conservadora da Igreja Católica», chegando a estabelecer uma proximidade ideológica entre essa parte da Igreja e o radicalismo islâmico. A comparação é desproporcionada, injusta e intelectualmente frágil. Pedir uma determinada forma de apresentação num templo católico não equivale a impor o véu integral, a restringir a liberdade das mulheres ou a defender um modelo teocrático de sociedade. Entre solicitar que alguém cubra os ombros para entrar numa igreja e obrigar uma mulher a ocultar o rosto em todos os espaços públicos existe uma distância tão evidente que só um artigo sensacionalista poderia fingir não a reconhecer.

24/06/26

Reformar a Igreja ou deixar-se reformar?

Sempre que um sacerdote abandona o ministério, surgem especialistas na análise do fenómeno. é possível que eu seja apenas mais um. Durante muitos anos, quase todos assumiam que a razão seria o desejo de casar. É verdade que essa continua a ser uma realidade em alguns casos, mas já não explica a maioria das situações. Hoje, escutam-se outras palavras: falta de liberdade, desgaste, sufoco, excesso de burocracia, incompreensão, dificuldades no relacionamento com os superiores ou simplesmente a sensação de que já não é possível viver o ministério com alegria.